1 gol de placa do garoto Ernani, que pegou
a bola no nosso campo de defesa, driblou uns 4 adversários, sendo que
o último foi o Mozer por entre as pernas, e completou com sucesso.
Eu me recordo que este jogo foi num sábado e após ficar durante
todo o domingo pensando e me convencer de que somente com as entradas de Roberto
e Pedrinho, nos lugares de Paulo César e Gilberto, este seria o time
ideal para disputar o triangular final, rumei no domingo à noite para
a casa do seu Calçada para comunicar-lhe a minha decisão, pois
eu sabia que quando a imprensa tomasse conhecimento ela iria fazer um estardalhaço
com aquela informação. O seu Calçada, que era Vice Presidente
de futebol, me deu a maior força e disse que o técnico da equipe
era eu e que fizesse o que era melhor para o Vasco da Gama. Esta foi a palavra
chave. Foi uma decisão complicada, porque o Mazaropi era um grande
ídolo do clube; o Rosemiro havia sido contratado ao Palmeiras a peso
de ouro; o Geovani era apontado como a grande revelação do Brasil
nos últimos tempos e o Palhinha era um jogador de grande prestígio,
que vinha de belos momentos no Cruzeiro, Corínthians e Seleção
Brasileira. Só o Nei não era tão conhecido. Estava tirando
gente de peso, mas precisava tomar uma posição. O okay do seu
Calçada foi fundamental.
Na segunda-feira seguinte, em reunião com o grupo, dei ciência
a todos daquilo que eu havia decidido, explicando a cada um dos jogadores
a quem eu havia sacado, os motivos técnicos que me levaram a tomar
tal atitude.Todos aceitaram perfeitamente e alguns acharam até que
já deveriam ter saído do time há muito tempo atrás.
Um deles foi Palhinha, que concordou na hora, dizendo: "pensei que o
senhor fosse me tirar antes!!". Tomei esta decisão logo no início
da semana, para que a imprensa não fizesse uma repercussão durante
toda a semana. Anunciando as mudanças na segunda, os jornalistas falariam
terça e quarta, e perto do jogo que seria só no domingo seguinte,
contra o América, a poeira já teria abaixado.
Eu estava consciente que se o Vasco da Gama não conquistasse aquele
título, a minha carreira de treinador, que estava se iniciando, iria
morrer no nascedouro.Vale ressaltar que muitos vascaínos dizem que
eu barrei os cinco somente na decisão final contra o Flamengo, o que
não é realidade, pois tudo foi decidido conscientemente após
aquele jogo contra a Portuguesa.
No primeiro jogo do triangular final contra o América vencemos por
1 a 0, gol do Ivan. O Flamengo vencia o América na quarta-feira e no
domingo iríamos pegar aquela máquina do momento. Todos os craques
do Flamengo em campo e eu com o meu time todo mexido. Demos um baile no adversário,
vencendo por 1 a 0, gol do Marquinhos, que entrara no intervalo, no lugar
de Dudu. Estava iluminado, porque normalmente o substituto natural seria o
Geovane. Graças a Deus tomei esta decisão. apesar do Pedrinho
Gaúcho dizer até hoje que o gol foi de sua autoria. Poderíamos
ter vencido com um placar maior, em face de uma exibição de
gala da nossa equipe.
Esta foi uma conquista que me marcou muito, pois eu praticamente estava iniciando
a minha carreira de técnico principal. Para melhorar,
desbancamos o Flamengo que possuía um time de outro planeta e a minha
decisão corajosa de ter barrado cinco jogadores na final
marcou e marca até hoje, mais de 20 anos depois. Ainda bem que o seu
Calçada me deu aval!
Eram
8 e meia da manhã daquele sábado 14 de outubro de 2000 e o motorista
do Dr. Ricardo Teixeira, Odair, me pegou e me levou para o sítio do
presidente. Na minha cabeça a expectativa que aumentava. Na quarta-feira
anterior, minutos antes do jogo entre Atlético Paranaense e Ponte Preta,
em Campinas, quando vencemos por 1x0, recebi no meu celular, um telefonema
do Dr. Ricardo, me convidando para ir à sua casa no interior do estado
do Rio de Janeiro. Como o Atlético não jogaria no fim de semana,
viajei para o Rio, chegando na sexta-feira. Eu, esperançoso até
sonhava com um convite para dirigir a seleção. Estávamos
sem treinador e como passava por uma grande fase, conquistando títulos
importantes como a Libertadores, o Brasileiro, Rio - SP, alem de ter participado
de duas finais de Mundiais, me sentia preparado para tal. Quando assumi o
Atlético, a equipe estava mal e depois subiu de produção,
prestes a obter a classificação para a fase final do campeonato
brasileiro. Mesmo com tudo isso teria que ouvir o Presidente. Chegando em
casa, saímos para jantar, eu, a Elza, o Júnior e a Karynne (
minha nora) . Imagine a ansiedade.
Quando cheguei, Dr. Ricardo, de quem tinha uma imagem séria e sóbria,
me recebeu de bermuda, com uma camisa colorida, apresentando - me a outros
familiares que estavam por lá. Foi a chave para relaxar. A imprensa
já sabia de minha visita e estava na porta do sítio esperando
uma notícia. O presidente me oferecia
O
ano de 1982 marcava uma época inteira para o Flamengo, grande rival
do Vasco, clube que eu treinava, buscando o meu primeiro título de
expressão. Mas era complicado vencer naquele ano. O Flamengo mantinha
a hegemonia do
futebol do Estado do Rio de Janeiro em conseqüência de possuir
uma equipe de grande qualidade técnica e um conjunto harmonioso, já
que os jogadores vinham atuando juntos desde 1978 e conquistando títulos
diversos no âmbito regional, nacional e internacional. A equipe era
tão boa que todos os torcedores, quer seja do Flamengo ou de outros
clubes do Brasil, sabiam na ponta da língua a sua escalação:
Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico;
Tita, Nunes e Lico. Como vencer esta máquina ?
Desenrolava-se o Campeonato Estadual e Vasco e Flamengo chegaram à
final da Taça Guanabara. Com um gol do Adílio no último
minuto, perdemos aquela disputa e sabia que nem o mais otimista vascaíno
podia crer em nossa conquista. O time do Vasco não andava bem e a maior
prova foi que no segundo turno, o vencedor foi o América. Estava duro
chegar. O nosso time havia feito uma Taça Guanabara de bom nível
e um início de Taça Rio de Janeiro avassalador. Mas caiu de
produção e mesmo assim obteve o maior número de pontos
nos dois turnos, conseguindo, pelo critério técnico, se classificar
para o triangular final, juntamente com Flamengo e América.
No penúltimo jogo da Taça Rio de Janeiro, o segundo turno, o
Vasco, com uma atuação desastrosa, venceu a Portuguesa, no campo
do Bangu, por 2 a 1 e garantiu a presença nas finais . Mas, era preocupante,
afinal estávamos muito mal numa hora em que deveríamos estar
subindo de produção.
Depois deste jogo em Bangu, dentro do ônibus que conduzia o time para
São Januário, comecei a pensar na possibilidade de modificar
o nosso time já para o último jogo do 2º. Turno contra
o Flamengo. Este jogo nada valia, pois a situação das três
equipes já estava definida para a parte final da competição.
No primeiro treinamento após o jogo contra a Portuguesa, em reunião
com o grupo de atletas, disse para eles que eu iria poupar alguns jogadores
no jogo seguinte contra o Flamengo. Disse que estava temendo lesões,
cartões amarelos ou vermelhos. Resolvi então sacar Mazaropi,
Rosemiro, Nei, Pedrinho, Geovani, Roberto Dinamite e Palhinha, colocando Acácio,
Galvão, Ivan, Gilberto, Ernani, Paulo César e Jerson. Logicamente
que Roberto Dinamite e Pedrinho não foram sacados por deficiência
técnica e sim por temeridade a lesões e cartões, enquanto
que os outros não vinham atuando bem há muito tempo. Veio o
jogo contra o Flamengo e o Vasco entrou em campo com a seguinte formação:
Acácio, Galvão, Ivan, Celso e Gilberto; Serginho, Dudu e Ernani;
Pedrinho Gaúcho, Paulo César e Jerson. O nosso time deu um chocolate
no Flamengo, vencendo com um categórico 3 x 1 , sendo 2 gols de Paulo
César e
quitutes e um bom whisky e formalizou o
convite para que eu fosse o presidente da comissão técnica.
De primeira eu estranhei e não entendi nada, mas ele me explicou a
autonomia que iria receber a partir daquele instante.Ele dava total liberdade
para escolher toda a comissão técnica e queria um trabalho bem
integrado de todos. No bonito sítio do presidente da CBF, eu vi um
homem empolgado e que me dizia a importância que eu teria. Alguém
de caráter e de honra inatingível deveria assumir este cargo.
Dr. Ricardo era um homem angustiado também, afinal era época
da CPI, o Wanderlei tinha saído depois de muitos problemas e nós
estávamos mal nas eliminatórias.
A empolgação dele acabou me contagiando.
Conversamos sobre alguns nomes para treinador,apesar de que ele achava melhor
que o Candinho ficasse no cargo para o jogo contra o Venezuela. Deveríamos
pensar no ano seguinte.Acertei meu compromisso, meu salário e já
comecei a pensar no futuro. Estava abraçando uma responsabilidade que
me emocionava. Deixei o sítio do Dr. Ricardo louco para contar tudo
para minha mulher e filho.
Quando voltei para casa não havia ninguém. Almoçei em
um restaurante próximo e dei muitas entrevistas. Mas a primeira preocupação
era avisar o Dr. Mário Celso Petraglia, presidente do Atlético
Paranaense, afinal estaria dependendo dele a minha liberação.
Como a mídia toda já sabia, ele ficou sabendo, mas me liberou
feliz, afinal estaria servindo seu país. Foi um dia empolgante.Dia
este que foi encerrado regado a carne e um Chopp gelado com meus familiares.
Me lembro que o primeiro brinde foi: "Ao Penta !". SANTAS
PALAVRAS.
" Um convite para a seleção
é um dever e um imenso orgulho para qualquer brasileiro. É uma
honra! "