Minhas Memórias

Memórias de Antonio Lopes

Com o aval do homem, derrubamos um time de outro planeta 

 

O ano de 1982 marcava uma época inteira para o Flamengo, grande rival do Vasco, clube que eu treinava, buscando o meu primeiro título de expressão. Mas era complicado vencer naquele ano. O Flamengo mantinha a hegemonia do futebol do Estado do Rio de Janeiro em conseqüência de possuir uma equipe de grande qualidade técnica e um conjunto harmonioso, já que os jogadores vinham atuando juntos desde 1978 e conquistando títulos diversos no âmbito regional, nacional e internacional. A equipe era tão boa que todos os torcedores, uer seja do Flamengo ou de outros clubes do Brasil, sabiam na ponta da língua a sua escalação: Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Como vencer esta máquina ?

 

Desenrolava-se o Campeonato Estadual e Vasco e Flamengo chegaram à final da Taça Guanabara. Com um gol do Adílio no último minuto, perdemos aquela disputa e sabia que nem o mais otimista vascaíno podia crer em nossa conquista. O time do Vasco não andava bem e a maior prova foi que no segundo turno, o vencedor foi o América. Estava duro chegar. O nosso time havia feito uma Taça Guanabara de bom nível e um início de Taça Rio de Janeiro avassalador. Mas caiu de produção e mesmo assim obteve o maior número de pontos nos dois turnos, conseguindo, pelo critério técnico, se classificar para o triangular final, juntamente com Flamengo e América.

 

No penúltimo jogo da Taça Rio de Janeiro, o segundo turno, o Vasco, com uma atuação desastrosa, venceu a Portuguesa, no campo do Bangu, por 2 a 1 e garantiu a presença nas finais . Mas, era preocupante, afinal estávamos muito mal numa hora em que deveríamos estar subindo de produção.

 

Depois deste jogo em Bangu, dentro do ônibus que conduzia o time para São Januário, comecei a pensar na possibilidade de modificar o nosso time já para o último jogo do 2º. Turno contra o Flamengo. Este jogo nada valia, pois a situação das três equipes já estava definida para a parte final da competição.

 

No primeiro treinamento após o jogo contra a Portuguesa, em reunião com o grupo de atletas, disse para eles que eu iria poupar alguns jogadores no jogo seguinte contra o Flamengo. Disse que estava temendo lesões, cartões amarelos ou vermelhos. Resolvi então sacar Mazaropi, Rosemiro, Nei, Pedrinho, Geovani, Roberto Dinamite e Palhinha, colocando Acácio, Galvão, Ivan, Gilberto, Ernani, Paulo César e Jerson. Logicamente que Roberto Dinamite e Pedrinho não foram sacados por deficiência técnica e sim por temeridade a lesões e cartões, enquanto que os outros não vinham atuando bem há muito tempo. Veio o jogo contra o Flamengo e o Vasco entrou em campo com a seguinte formação: Acácio, Galvão, Ivan, Celso e Gilberto; Serginho, Dudu e Ernani; Pedrinho Gaúcho, Paulo César e Jerson. O nosso time deu um chocolate no Flamengo, vencendo com um categórico 3 x 1 , sendo 2 gols de Paulo César e 1 gol de placa do garoto Ernani, que pegou a bola no nosso campo de defesa, driblou uns 4 adversários, sendo que o último foi o Mozer por entre as pernas, e completou com sucesso.

 

Eu me recordo que este jogo foi num sábado e após ficar durante todo o domingo pensando e me convencer de que somente com as entradas de Roberto e Pedrinho, nos lugares de Paulo César e Gilberto, este seria o time ideal para disputar o triangular final, rumei no domingo à noite para a casa do seu Calçada para comunicar-lhe a minha decisão, pois eu sabia que quando a imprensa tomasse conhecimento ela iria fazer um estardalhaço com aquela informação. O seu Calçada, que era Vice Presidente de futebol, me deu a maior força e disse que o técnico da equipe era eu e que fizesse o que era melhor para o Vasco da Gama. Esta foi a palavra chave. Foi uma decisão complicada, porque o Mazaropi era um grande ídolo do clube; o Rosemiro havia sido contratado ao Palmeiras a peso de ouro; o Geovani era apontado como a grande revelação do Brasil nos últimos tempos e o Palhinha era um jogador de grande prestígio, que vinha de belos momentos no Cruzeiro, Corínthians e Seleção Brasileira. Só o Nei não era tão conhecido. Estava tirando gente de peso, mas precisava tomar uma posição. O okay do seu Calçada foi fundamental.

 

Na segunda-feira seguinte, em reunião com o grupo, dei ciência a todos daquilo que eu havia decidido, explicando a cada um dos jogadores a quem eu havia sacado, os motivos técnicos que me levaram a tomar tal atitude.Todos aceitaram perfeitamente e alguns acharam até que já deveriam ter saído do time há muito tempo atrás. Um deles foi Palhinha, que concordou na hora, dizendo: "pensei que o senhor fosse me tirar antes!!". Tomei esta decisão logo no início da semana, para que a imprensa não fizesse uma repercussão durante toda a semana. Anunciando as mudanças na segunda, os jornalistas falariam terça e quarta, e perto do jogo que seria só no domingo seguinte, contra o América, a poeira já teria abaixado.

 

Eu estava consciente que se o Vasco da Gama não conquistasse aquele título, a minha carreira de treinador, que estava se iniciando, iria morrer no nascedouro.Vale ressaltar que muitos vascaínos dizem que eu barrei os cinco somente na decisão final contra o Flamengo, o que não é realidade, pois tudo foi decidido conscientemente após aquele jogo contra a Portuguesa.

 

No primeiro jogo do triangular final contra o América vencemos por 1 a 0, gol do Ivan. O Flamengo vencia o América na quarta-feira e no domingo iríamos pegar aquela máquina do momento. Todos os craques do Flamengo em campo e eu com o meu time todo mexido. Demos um baile no adversário, vencendo por 1 a 0, gol do Marquinhos, que entrara no intervalo, no lugar de Dudu. Estava iluminado, porque normalmente o substituto natural seria o Geovane. Graças a Deus tomei esta decisão. apesar do Pedrinho Gaúcho dizer até hoje que o gol foi de sua autoria. Poderíamos ter vencido com um placar maior, em face de uma exibição de gala da nossa equipe.

 

Esta foi uma conquista que me marcou muito, pois eu praticamente estava iniciando a minha carreira de técnico principal. Para melhorar, desbancamos o Flamengo que possuía um time de outro planeta e a minha decisão corajosa de ter barrado cinco jogadores na final marcou e marca até hoje, mais de 20 anos depois. Ainda bem que o seu Calçada me deu aval!

 

Como comecei a ser penta-campeão. O dia do convite!

 

Eram 8 e meia da manhã  daquele sábado 14 de outubro de 2000 e o motorista do Dr. Ricardo Teixeira, Odair, me pegou e me levou para o sítio do presidente. Na minha cabeça a expectativa que aumentava. Na quarta-feira anterior, minutos antes do jogo entre Atlético Paranaense e Ponte Preta, em Campinas,  quando vencemos por 1x0, recebi no meu celular, um telefonema do Dr. Ricardo, me convidando para ir à sua casa no interior do estado do Rio de Janeiro. Como o Atlético não jogaria no fim de semana, viajei para o Rio, chegando na sexta-feira. Eu, esperançoso até sonhava com um convite para dirigir a seleção. Estávamos sem treinador e como passava por uma grande fase, conquistando títulos importantes como a Libertadores, o Brasileiro, Rio - SP, alem de ter participado de duas finais de Mundiais, me sentia preparado para tal. Quando assumi o Atlético, a equipe estava mal e depois subiu de produção, prestes a obter a classificação para a fase final do campeonato brasileiro. Mesmo com tudo isso teria que ouvir o Presidente. Chegando em casa, saímos para jantar, eu, a Elza, o Júnior e a Karynne (minha nora). Imagine a ansiedade...

 

Quando cheguei, Dr. Ricardo, de quem tinha uma imagem séria e sóbria, me recebeu de bermuda, com uma camisa colorida, apresentando - me a outros familiares que estavam por lá. Foi a chave para relaxar. A imprensa já sabia de minha visita e estava na porta do sítio esperando uma notícia. O presidente me oferecia quitutes e um bom whisky e formalizou o convite para que eu fosse o presidente da comissão técnica. De primeira eu estranhei e não entendi nada, mas ele me explicou a autonomia que iria receber a partir daquele instante. Ele dava total liberdade para escolher toda a comissão técnica e queria um trabalho bem integrado de todos. No bonito sítio do presidente da CBF, eu vi um homem empolgado e que me dizia a importância que eu teria. Alguém de caráter e de honra inatingível deveria assumir este cargo. Dr. Ricardo era um homem angustiado também, afinal era época da CPI, o Wanderlei tinha saído depois de muitos problemas e nós estávamos mal nas eliminatórias.


A empolgação dele acabou me contagiando. Conversamos sobre alguns nomes para treinador,apesar de que ele achava melhor que o Candinho ficasse no cargo para o jogo contra o Venezuela. Deveríamos pensar no ano seguinte.Acertei meu compromisso, meu salário e já comecei a pensar no futuro. Estava abraçando uma responsabilidade que me emocionava. Deixei o sítio do Dr. Ricardo louco para contar tudo para minha mulher e filho.


Quando voltei para casa não havia ninguém. Almoçei em um restaurante próximo e dei muitas entrevistas. Mas a primeira preocupação era avisar o Dr. Mário Celso Petraglia, presidente do Atlético Paranaense, afinal estaria dependendo dele a minha liberação. Como a mídia toda já sabia, ele ficou sabendo, mas me liberou feliz, afinal estaria servindo seu país. Foi um dia empolgante.Dia este que foi encerrado regado a carne e um Chopp gelado com meus familiares. Me lembro que o primeiro brinde foi: "Ao Penta !".

 

Santas Palavras!!!